domingo, 14 de fevereiro de 2010

Primeiro Dia de Desfile das Escolas de Samba do Rio, comentado ao vivo, direto da Sapucaí, na visão de um botequeiro, cozinheiro e curioso.

G.R.E.S. Ilha do Governador
No meio do caminho tinha um viaduto, Um viaduto sempre esteve naquele caminho

A primeira escola do primeiro dia sofre pelo calor do final de tarde/início de noite, piorado pelo horário de verão, e pela frieza do público, que ainda está chegando e se poupa no início, naturalmente. Porém, a Ilha, assim como a Império Serrano, Estácio de Sá, Caprichosos, são escolas despojadas e que quebram, literalmente, esse clima. Um samba pra cima, com refrão forte, com pitada de Arlindo Cruz (que ninguém nos ouça), bem interpretado pelo jovem, competente herdeiro e estreante no Grupo Especial, Ito Melodia, que puxou um esquenta dos melhores, um Ito que puxou um Ita, com o grito "a união voltou".
Um enredo com assinatura de grife, "por Rosa Magalhães", tinha tudo pra dar certo. Mas, o velho e conhecido viaduto, vilão de sempre das escolas que concentram pro lado do "Balança", atrapalhou sobremaneira a evolução da Ilha e conquentemente a harmonia, sem falar em alguns adereços que ficaram pra trás e parte da alegoria do carro 4. Fica uma idéia de solucionar o problema do viaduto, pois o investimento que envolve o Carnaval do Rio, patrocínio e injeção de dinheiro externo através do turismo, banca facilmente uma ponte retrátil ou outro projeto.
A bateria não inventou, foi conservadora, manteve o ritmo (marcação e tempo) e os jurados desse quesito gostam disso. A Comissão de frente também veio no "padrão", sem Mister M, Cirque de Soleil ou show pirotécnico. O quesito enredo, principalmente, e harmonia, decidirão se teremos a Ilha em 2011. Tomara que sim, pois no quesito "levanta a galera" a nota foi 10.

G.R.E.S. Imperatriz Leopoldinense
Um mantra dos melhores na Sapucaí "Oh, Deus pai! Iluminai o novo dia, Guiai ao divino destino, Seus peregrinos em harmonia".

Lembrei do Cid Moreira e do Papa Bento XIV, só que o primeiro orando num CD e o Papa rezando uma missa no Vaticano, com todo respeito ao Mister M, faz toda a diferença. Quem ouviu o samba-enredo da Imperatriz não imaginava que na avenida o samba iria se transformar num mantra liderado pelo Padre-Puxador Dominguinhos Macelo Rossi do Estácio. Arrepiante ! "Oh, deus pai! Iluminai o novo dia, Guiai ao divino destino, Seus peregrinos em harmonia". E já que falei do Padre PopStar Marcelo Rossi, mesmo que uma letra em louvação, a bateria brincou de ousar, de criar, as paradinhas foram um deboche ! Coisa de maluco, inesquecível ! Pra mim, já está gravado na memória. Dominguinhos do Estácio, hors concours, dispensa comentário, "404 error !". Max Lopes, o homem que é um luxo só, até mesmo quando o dinheiro era pouco ele conseguia deixar sua chancela "por Max Lopes", com um pouquinho de dinheiro a mais, brincou de luxo, sofisticação e colorido. Com um novo posto de julgadores, ou seja, 5 minutos a mais, ou melhor, 5 minutos a menos de evolução, todos os diretores de harmonia das outras escolas estavam monitorando o tempo de cada setor da Ilha. Só que com a quebra do carro 4 da Ilha, a brincadeira acabou e quem sofreu com isso foi a Imperatriz, que não conseguiu sincronizar seu desfile nos 80 minutos e teve seu carro abre-alas, temporiamente andando que nem siri, de lado, o que atrapalhou também a evolução da escola e consequentemente a harmonia. Correria nos últimos 10 minutos, coloca em risco o ótimo trabalho da Escola, desde o enredo, samba, bateria e alegorias.
G.R.E.S. Unidos da Tijuca
O Segredo, título do samba, é entender a mente desse gênio chamado Paulo Barros. Salve a inovação e a criatividade que convivem, harmoniosamente, com a tradição do carnaval.

Um coquetel chamado Paulo Barros, um mix de David Coperfield, Victor Frankenstein, Emmet Brown, William Shakespeare e John Frink, muito criticado pelos entendedores que ainda "batem a máquina Oliveti", quem enviam carta em envelope emoldurado em verde e amarelo e usam pomada minancora nas axilas.
Paulo Barros, um jovem 100% talento, coloca a sua personalidade na avenida sem medo de errar. Desde que apareceu, recentemente, criou o contra-ponto necessário para acabar com a tradição excessiva ou medo da mudança, sei lá, que afetava também o Carnaval do Rio. Na Tijuca, ousadia é pouco e a surpresa é garantida. Só isso já vale o ingresso.
A Comissão de Frente foi o couvert do excelente cardápio que iria ser servido. Vi gente sem piscar durante os 80 minutos. Troca de 6 figurinos em 2 segundos/cada, Fogo na Biblioteca de Alexandria, Presente de Grego, Os Jardins Suspensos com 5 mil plantas naturais numa alegoria, 4 mil litros de água, numa união de Jardim Botânico com Carro Orgânico. Bateristas mafiosos que mantiveram um andamento perfeito, ousaram nas paradinhas e ao mesmo tempo tinham que coreografar para permitir a passagem de um calambeque preto. Batman esquiando e homem aranha escalando numa rampa de 9 metros de altura. Alegoria que impressiona, mas "pesada", ou seja, ocupava espaço e foi pouco utilizada. Michael Jackson deixou de tomar seu Propofol do dia e deu o ar da graça. Quando passou pela Madonna gritou "auuuuuuu!!!!!!!!!". O samba enredo podia ter ajudado mais.
Um pavão humano com 200 pessoas, fechou o desfile e deixou a pergunta: Qual é o detalhe que falta pra Unidos da Tijuca de Paulo Barros ser campeã ??? Ahh, isso não pode ser ser segredo !!! É a primeira Escola do dia a entrar na disputa pelo título, que o samba enredo não atrapalhe...mas não conte pra ninguém, é segredo !!!

G.R.E.S. Viradouro
Eu assisti uma página do livro "A Rica História do México" com direito a "Flash Mob" com coreografia "Estátuas Cochilantes"

A Viradouro já entrou na Avenida com um grande desafio: tentar desfilar o rico enredo que não foi refletido no samba-enredo. Explorar as cores, diante de tanta similaridade entre o México e o Brasil, gastronomia boa, com identidade e que os brasileiros apreciam, alegria do povo, lindas praias,..., e por aí vai. Logo no início o Diretor de Bateria Mestre Jorjão acabou com a expectativa de todos: fez a paradinha com batida funk que virou marca dele. Nesse momento, 30 minutos de desfile, e a arquibancada fazendo "flash mob" com coreografia "Estátuas e Colchonetes". Samba enredo desencadeado logicamente e melodiosamente fez que poucos integrantes cantassem. Vejo 10% de cada ala cantando o samba. Pouco movimento, pouca coreografia, pouca empolgação por parte dos integrantes, efeito do samba-enredo.
Alguém tem o telefone do Mexico Delivery ? Vou pedir uns nachos, guacamole, burrito, enchilada...e beber uma 100% agave.
Voltando ao desfile, alguém poderia dizer "desfile tecnicamente perfeito" iguais aqueles da Imperatriz e alguns da Beija-Flor, mas não é o caso. Escola passou fria, faltou pimenta chilli e parece que faltou orçamento também...fiquei com essa impressão. Entre mortos e feridos, Salvaram-se Wander Pires e Mestre Jorjão.
G.R.E.S. Acadêmicos do Salgueiro
Uma aula de como explorar bem um enredo e engajamento dos componentes. De tão bom, a História Sem Fim, nome do samba-enredo, poderia se transformar num Desfile Sem Fim
Renato Lage deu o exemplo de enredo bem escolhido e bem explorado. Mesmo sendo amplo, nada ficou de fora, "Ipsis litteris". Renato Lage é muito competente e mergulha na pesquisa dos enredos que ele trabalha. Comissão de frente criativa, bem fantasiada e com coreografia complexa porém muito bem executada. A melhor comissão de frente do dia até agora.
Fantasias auto-explicativas, enredo inteligível nas alegorias, nos adereços, em tudo. Todos os componentes, todos mesmo, cantando o samba e sorrindo. Percebe-se uma direção de harmonia segura e serena, passando segurança pra escola. Muito movimento nos carros com o grupo Intrépida Trupe, em balanços e pêndulos.
Melhor ano do Quinho como intérprete do Salgueiro. A bateria, a furiosa, batendo forte e cadenciadamente perfeita e com direito a paradinhas. Uma ala coreografada, raro de se ver hoje em dia, a ala navio negreiros deu um show. O uso bem feito de tripês deixa a escola mais preenchida na avenida, separa os setores e facilita a compreensão do enredo. Foi muito bem aplicado pelo Renato Laje.
Pela fama e envolvimento da comunidade, o Salgueiro sempre vem grande, com mais de 4 mil integrantes e deixa aquele frio na barriga no final em função do tempo. Olho nos quesitos harmonia e evolução em função de uma corridinha na chegada. Sempre foi assim. O pessoal de Parintins deu um show na elaboração do último carro, um robô enorme, todo articulado e com 16 pessoas dentro garantindo os movimentos.
Não é nada arriscado afirmar desde já que o Salgueiro briga seriamente pelo bi-campeonato. Salgueiro, desfilou com alma e coração como diz o samba.
G.R.E.S. Beija-Flor de Nilópolis
Um desfile onde o galho de arruda foi dispensado. Escola conseguiu com habilidade contornar a questão política que poderia comprometer inconscientemente o seu desfile


A Beija-Flor pode desfilar com um samba escrito em grego que os componentes já vão entrar na avenida cantando. Isso ocorre em função de ser a escola com maior participação da comunidade entre os componentes. Antes de começar o esquenta já estavam todos cantando e sorrindo. Isso faz a diferença e é fruto de muitos ensaios e do envolvimento nilopolitano. A Beija-Flor é praticamente uma S/A.
Diretores de Harmonia com faixa presidencial e representando JK. Samba-enredo com chancela "beija-flor", complexo, sem refrão forte, letra bem escrita, mediamente melodioso, mas que sintetiza o enredo e não deixa nada de fora.
Como a avaliação é totalmente técnica e decidida em 0,1 ponto, isso faz da Beija-Flor a maior campeã dos últimos anos. Nada na Beija-Flor é decidido isoladamente. Existe comissão para tudo, inovação que surgiu após a saída do Joãozinho Trinta e hoje liderada por Laíla. A Comissão de Frente com uma roupa indescritível, pássaros, anjos, as asas de Brasília, beija-flor e muito bem coreografada. Um carro abre-alas acomplado com 60 metros de comprimento, muito colorido, luzes, impressionando e impactando de partida.
Muito investimento em 2 carros acoplados e a troca do luxo pelas cores. Percebi por volta dos 50 minutos de desfile uma diminuída na cadência, talvez o Neguinho precisasse usar mais seus intérpretes pra puxar a bateria pra cima. Praticamente todas as escolas deram uma corridinha no final, e isso foi reflexo no novo posto de julgadores.
Pra concluir e como já era esperado, um desfile tecnicamente perfeito, que não levantou a galera, mas que credencia a Beija-Flor para brigar com Salgueiro e Unidos da Tijuca pela melhor escola nesse primeiro dia.

Bom dia pra todos, bom Carnaval...Momo vai descansar que daqui a pouco tem mais, chora cavaco, caramba !

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